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Na última quinta-feira, 21, Ichiro Suzuki fez o último jogo de sua carreira: uma vitória de 5-4 sobre o Oakland Athletics, por acaso o mesmo resultado de seu primeiro jogo na MLB. Com essa despedida poética, o futuro Hall of Famer deixa o esporte após incríveis vinte e oito temporadas a nível profissional, nove anos na Liga Japonesa e dezoito na Major League Baseball. E não, isso não foi tempo suficiente para quem o viu jogar. Sentiremos muito a falta de Ichiro, um homem que quebrou recordes, aprendeu espanhol para praticar a arte do trash talk e motivou a AL a vencer diversos All-Star Games em sequência.

Foi um despedida triste, embora previsível – Ichiro já está com 45 anos. Mas faremos aqui, neste Domingo Histórico MLB, uma homenagem nada mais que justa: vamos relembrar os melhores momentos de uma riquíssima carreira que, infelizmente e como tudo na vida, chegou ao fim.

Started from the bottom

Crescido na cidadezinha de Toyoyama, Japão, Ichiro começou a treinar baseball bastante cedo sob o rigor de seu pai. E sim, seu potencial era claro desde muito cedo…

Olhem esse ser humaninho. Coisa mais fofa. Foto: Super Ichiro Crazy/Wordpress

Já no high school, onde era primariamente um arremessador, Ichiro teve uma média absurda de .505 com 19 home runs. Teria futuro o garoto? Acreditamos que sim.

Mas, talvez, não era bem isso o que acreditavam os times da Pacific League – em 1991, possivelmente devido a seu porte pequeno, Ichiro foi escolhido apenas na última rodada do Draft. Representando o Orix BlueWave, Ichiro pouco foi a campo em seus primeiros anos, tendo sido relegado pelo manager da equipe, que não aceitava seu swing diferentoso – muito embora tivesse se saído bem em suas primeiras partidas. Imaginem a cara de bunda que esse primeiro manager deve ter nos dias atuais.

Em 1994, no entanto, o Orix BlueWave contratou um novo manager. A partir daí, Ichiro seria uma figura regular no lineup da equipe.

Um swing icônico, de nome próprio – o pêndulo,
振り子打法  – causou discórdia no começo. Foto: Ed Szczepanski-USA TODAY Sports

O rei da Pacific League

Vamos recapitular: Ichiro foi draftado em 1991 no último round e jogou apenas 83 jogos entre 1992 e 1993. Nada espetacular, certo?

E então, em seu primeiro ano como titular no Japão… o homem rebateu .385 em 130 jogos, com 210 hits. UM BA DE .385. 210 hits. EM MAIS DE CEM JOGOS. Vocês conseguem entender o que é isso? Isso é o torcedor japonês de 1994 ir ao estádio e SABER que naquele dia, e não importa qual dia, TERIA base hit do Ichiro, muito provelmente mais de um base hit. É um absurdo, uma monstruosidade, e ainda assim não começa a explicar a importância de Ichiro Suzuki para o esporte. Respirem fundo, porque essa temporada ridícula foi só O COMEÇO.

O BlueWave, originalmente Hankyu Braves e hoje Orix Buffaloes, enfrentava uma seca de décadas quando seu caminho se cruzou com o homenageado de hoje. Vitorioso nos anos 1970, sendo três vezes campeão da Japan Series, o BlueWave teve apenas um pennant da Pacific League entre 1978 e 1995, quando Ichiro o conduziu aos playoffs novamente. No ano seguinte, seriam campeões. Hall of Famers tendem a ter esse efeito nas pessoas, e um dos primeiros encontros de Ichiro com pessoas no seu nível seria com um tal jogador de basquete que fez um filme bem bacana nos anos 90.

Apenas o GOAT e Michael Jordan em 1995. Foto: Reddit

Dizer que os nove anos de Ichiro no Japão foram sensacionais é pouco – ele simplesmente abocanhou 3 MVPs, 6 batting titles e 7 Gold Gloves e All-Stars seguidos essencialmente em 7 temporadas – lembremos que pouco jogou nas primeiras duas. Em todo seu tempo como titular no BlueWave, Ichiro rebateu ao menos 17 home runs por ano. Ou seja, enquanto apareceu no lineup regularmente, foi no mínimo All-Star e, no máximo, bom, o melhor jogador da p*rra toda.

Façam uma pausa. Passem um café. Passeiem com seus cachorros. Tentem absorver essas informações, porque vocês sabem que não acaba aí.

A serenidade de quem já jogava fácil enquanto você assistia o Xou da Xuxa. Foto: Pinterest

Conquistando a terra do Tio Sam

Fizeram uma pausa? OK, vamos seguir.

Se a carreira de Ichiro acabasse em 2000, quando ficou claro que não permaneceria no BlueWave, já teríamos muito o que aplaudir – sério, o que dizer de uma média de .353 em nove anos? Mas, como diria aquele personagem do Tarantino, se antes Ichiro tinha nosso interesse, agora teria nossa atenção.

Hoje em dia, é normal vermos jogadores japoneses tendo sucesso na MLB, mas isso era pra lá de incomum no começo deste século. Muito embora a paixão do país pelo baseball seja evidente, apenas um japonês havia entrado na liga – Masanori Murakami, pitcher dos Giants entre 1964 e 1965 – antes de Hideo Nomo, que chegou em 1995 e simplesmente impressionou a América, colecionando prêmios e abrindo a porta para outras estrelas da Liga Japonesa. Ainda assim, o fluxo de jogadores japoneses seguiu praticamente restrito a arremessadores – e ainda o é hoje em dia, mas nada que pudesse impedir Ichiro Suzuki.

No final de 2000, o Seattle Mariners vence a disputa por Ichiro e assina um contrato de três anos com o ídolo da Liga Japonesa. Extasiado, um rookie de 27 anos se emociona ao conhecer Pedro Martinez em 2001, celebrando a oportunidade de enfrentar o melhor pitcher da Major League Baseball e aproveitando para descolar uma basebola assinada. Um encontro delicioso entre duas lendas da MLB. Apreciem:

Então, no começo de 2001, os Mariners tinham uma grande promessa em mãos e muitas expectativas, mas a verdade é que ninguém estava preparado para o que veio depois. Muito se fala em temporadas de estreia impressionantes no esporte – como esquecer o rookie Dan Marino nos Dolphins, o começo estonteante de Wayne Gretzky na NHL ou o ridículo ano de estreia de Wilt Chamberlain?

Talvez pareça bobagem sugerir que o debut de Ichiro Suzuki na MLB possa ser mencionado junto aos exemplos acima em um primeiro momento, mas permitam que eu refresque vossas memórias e explique como o primeiro de muitos anos sensacionais de Ichiro nos Estados Unidos foi o mais épico de todos. Bem-vindos a 2001; vejamos os fatos.

  • Em seu oitavo jogo na MLB, Ichiro fez ESSE arremesso;
  • Em seu décimo quinto jogo na MLB, a média de Ichiro era .377; ao final do ano, sua média foi de… .350. MONSTRO.
  • Ichiro levou um Seattle Mariners sem Ken Griffey Jr., Randy Johnson ou Alex Rodriguez a 116 vitórias e à ALCS. Reflitam sobre isso.
  • Jackie Robinson havia sido o último jogador de baseball a liderar a MLB em batting average e bases roubadas, lá em 1949, até Ichiro Suzuki fazê-lo em 2001…
  • Apenas dois jogadores venceram os prêmios de Rookie of the Year e MVP no mesmo ano na história da MLB: Fred Lynn e Ichiro.

Convencidos? Que bom, porque, como eu disse, 2001 foi apenas o primeiro ano em que Ichiro conquistou a América.

Ichiro Suzuki: RoY, MVP, All-Star, Gold Glove e bobblehead. Foto: Pinterest

2004: Mister On-Base

Então, após três anos na Major League Baseball, Ichiro Suzuki, já All-Star em todos seus primeiros anos e liderando a votação em todos eles, quebrou um recorde de 84 anos em 2004.

Em 1920, o grande George Sisler, do St. Louis Browns, teve nada menos que 257 hits na temporada, ano em que esteve presente em todos os innings de todos os jogos de seu time. Então, quase 100 anos depois, Ichiro. 262 hits. Ninguém mais conseguiu isso em um ano, nem nos Estados Unidos, nem no Japão. Muitos especulam que esse recorde jamais será quebrado – veremos, mas quem presenciou, sabe o que viu. Esse número absurdo se traduziu em uma presença em base 41% das vezes em que Ichiro foi ao bastão. Vocês conseguem dimensionar isso?

Ninguém acumulou mais hits em quatro anos de MLB do que os 924 de Ichiro entre 2001 e 2004. Exceto ele mesmo, quer dizer: foram 930 de 2004 a 2007. Apenas uma lenda supera uma lenda, e estamos falando de duas lendas em um homem só – um samurai franzino fazendo história na mesma época de jogadores whey protein como Barry Bonds, Alex Rodriguez e outros.

The man can HIT

Em 2006, aconteceu a primeira edição do World Baseball Classic, reunindo seleções dos países mais prolíficos do baseball. À frente do Japão, claro, Ichiro. Naquele ano, superando uma rivalidade acirrada com a Coreia do Sul nas semifinais, país esse que havia deixado os japoneses em segundo na fase de grupos, o Japão sagrou-se o primeiro Campeão Mundial de Baseball diante de Cuba. Ichiro teve 12 hits no torneio, um home run, sete corridas e quatro bases roubadas. Três anos depois, seria dele a rebatida da vitória para o bicampeonato japonês na taça que só conheceu outras mãos em sua terceira edição.

De 2001 a 2010, os primeiros 10 anos de Ichiro na MLB, ele foi sempre um All-Star e Gold Glove e esteve sempre na discussão de MVP, exceto em 2005, quando teve um ano abaixo da média, com apenas .303 no bastão. Pois é. Ichiro liderou a liga por sete anos durante esse período e, pra botar a cereja no bolo, também foi Silver Slugger em 2001, 2007 e 2009. Ah, e pra quem fala pouco dos hits de Ichiro em favor dos grandes rebatedores de HR, vai um quote da própria lenda:

“Chicks who dig home runs aren’t the ones who appeal to me,” he said. “I think there’s sexiness in infield hits because they require technique. I’d rather impress the chicks with my technique than with my brute strength. Then, every now and then, just to show I can do that, too, I might flirt a little by hitting one out.”

“Garotas que gostam de home runs não fazem o meu tipo,” ele disse. “Eu acho rebatidas no infield muito sexy porque elas exigem técnica. Eu prefiro impressionar as moças com a minha técnica do que com minha força bruta. Mas, de vez em quando, só pra mostrar que eu também consigo fazer isso, dou um flerte e mando a bola pra arquibancada.”
Se ele falou, tá falado. Foto: ESPN

Escolhendo um outfit para o Hall da Fama

Após uma última temporada completa em Seattle em 2011, em que desbancou o recorde de base hits de um jogador da franquia, Ichiro, já com 38 anos e fora de seu auge, agraciou as torcidas de Yankees e Marlins com sua presença antes de voltar ao time que lhe abriu as portas nos Estados Unidos em 2018. Você pensaria que sobraria pouco a comentar de um jogador atravessando os 40 anos na liga mais competitiva de baseball do mundo. Você estaria errado.

É que, se àquela altura a presença de Ichiro no Hall da Fama do baseball já parecesse óbvia, ela se tornou inevitável nos últimos anos de sua carreira. A vaga já estava muito aberta, e chegou a hora de sacramentá-la. Para o incansável Ichiro, sem problemas: estava na hora de atingir alguns milestones, e assim a lenda o fez.

  • 30 de julho de 2012: 100 home runs (carreira);
  • 21 de agosto de 2013: 4.000 hits (carreira), sétimo jogador profissional a alcançar esse número;
  • 9 de agosto de 2014: 2.811 hits (MLB), ultrapassando George Sisler;
  • 25 de abril de 2015: 1.968 corridas (carreira), maior número por um jogador japonês (anterioremente Sadaharu Oh);
  • 14 de agosto de 2015: 4.192 hits (carreira), superando Ty Cobb;
  • 29 de abril de 2016: 500 bases roubadas (MLB), supera Frank Robinson no ranking de hits pela MLB;
  • 15 de junho de 2016: 4.257 hits (carreira), superando Pete Rose;
  • 7 de agosto de 2016: 3.000 hits (MLB), sétimo jogador a acumular 3.000 hits e 500 bases roubadas;
  • 14 de junho de 2017: 365 hits interligas (MLB), superando Derek Jeter como o maior da história;
  • 29 de março de 2018: 5.000 eliminações (carreira), o vigésimo outfielder a atingir a marca na história.

No fim de tudo, 28 anos após sua jornada pelo baseball profissional começar, Ichiro Suzuki esteve presente em 3.603 jogos, com média de .322, 4.367 hits, 235 HRs, 1309 RBI, 708 bases roubadas, .373 OBP, .434 SLG, .807 OPS. Ainda, não consigo não sentir o egoísmo de querer mais, sempre mais de Ichiro. Mas uma hora tudo acaba, é assim que as coisas funcionam.

Com tudo isso dito, acho que só nos resta mais uma frase hoje: arigatou gozaimasu, Ichiro.

#MLBdaMassa #DomingoHistóricoMLB #Ichiro

Ichiro, teu povo te ama. Foto: AP

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Bianca Segatt Ractz

Brewerzista, editora-chefe do @MILDepreshow, colorada, tradutora e revisora nas horas vagas.

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6 thoughts on “VALEU, ICHIRO”

  1. Bianca, vc é RI-DÍ-CU-LA! Não tenho dúvidas de que esse seu texto está entre os melhores, dos milhares, que foram escritos em homenagem a Ichiro Suzuki pelo mundo afora. Lindo, lindo, lindo! Cê não imagina a minha alegria em saber que cê tá e vai ficar por muito tempo – ETERNAMENTE – no MLB DA MASSA! PQP! QUE TEXTO!!!!

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